De repente 30

Já faz 10 anos, ou mais, que eu assisti a comédia romântica “De Repente 30” com a maravilhosa da Jeniffer Garner e o bonitinho do Mark Ruffalo. O filme, para quem não se lembra ou não assistiu, conta a história de Jenna Rink, uma garota pouco popular que após passar uma vergonha no seu aniversário de 13 anos se tranca em seu armário e deseja ter 30 anos, “a idade do sucesso”, segundo a matéria de capa da sua revista preferida.  Sem me alongar a história do filme, um ponto crucial abordado é que após acordar e ter o seu desejo atendido, o que incluía outros sonhos de adolescente, como ter um namorado, trabalhar na sua revista favorita e ser popular, Jenna, que agora se encontra com aquela idade, mas a essência e alma da menina de treze anos começa a criticar aquele mundo e a pessoa que se tornou. Mesmo tendo conquistado tudo que sempre sonhou a protagonista tem uma crise dos 30 por não se lembrar dos últimos anos, dando a ideia, que todos temos, de “tempo perdido”, ou o “tempo passou rápido demais”.  Resumindo, ela passa a questionar sua vida e sua trajetória, quem ela se tornou, as escolhas que fez e se é isso mesmo que ela deseja para sua vida.

Bom, aqui estou eu, quase uma década depois, às 04:00 da manhã com uma insônia que tem se tornado frequente e a história de Jenna na cabeça. Eu me lembro que quando assisti esse filme, fiquei deslumbrada com a ideia de como seria minha vida aos 30 anos. Independência, carreira, viagens, jantares, namorado, quiçá um marido, no melhor estilo Rodrigo “homão da poha” Hilbert, e o principal: Sensação de realização e felicidade. Bom, devo adiantar para vocês que essa insônia no meio da madrugada de uma quinta feira fria de julho, não tem nada a ver com isso. Eu estou sem emprego, sem saber bem o que fazer da minha vida, nunca tive um namorado, e ser popular é algo que nunca vou conhecer nessa vida (ainda bem, que depois dos 15 anos esse deixa de ser um fato de grande relevância). Eu não sei em que ponto da minha vida as coisas saíram tanto do controle (se é que eu já tive o controle desse caminhão sem freio algum dia), mas uma coisa eu tenho certeza: Ou eu me entendo de uma vez por todas comigo mesma ou eu vou enlouquecer. Não há nada nem ninguém que possa me ajudar com toda essa bagunça interior além de mim mesma. A maioria das minhas amigas está casada, com filhos, ou pelo menos em uma relação séria, seja com um “namorido”, seja com suas carreiras. E eu, bem, eu estou tentando me pedir em casamento, mas nem eu mesma estou me aceitando, socorro.

Esse não é um papo motivação a lá Gabriela “ A vida é mara” Pugliesi, até porque, aquela ali não tem mesmo do que reclamar da vida, e nem precisa se preocupar em se pedir em casamento, já que aquele marido dela deve valer por todos os meus esposos das últimas cinco encarnações. Esse é um papo sobre sobrevivência. Eu nunca me imaginei passando uma crise dos 30. Eu achava que isso era apenas uma invenção social para mais uma vez reduzir as mulheres a pedaços de carne com prazo de validade, que quanto mais jovens e frescos melhor. Afinal, pouco se fala em crise dos 30 para homens, até porque, a nossa sociedade sempre tentou conduzir o envelhecimento dos homens como algo bom. O homem maduro, experiente, o grisalho charmoso, homens são como vinhos, e por aí vai. Por outro lado, a juventude da mulher é hipervalorizada e o passar do tempo visto como algo ruim. As rugas, a barriguinha saliente, os cabelos grisalhos ainda podem ser vistos como atraentes no homem, mas a sociedade jamais colocou essas características como atraentes em uma mulher. Além disso, uma mulher de 30 anos já deveria estar casada, ou pelo menos em uma relação que caminhe para isso. Filhos, carreira, já deveriam estar encaminhados, ou no mínimo visíveis no horizonte, e não mais distantes do que eu voltar a comer açúcar sem sofrer as consequências. Por isso, eu não descarto completamente a parcela de culpa, nessa confusão toda, do meu pensamento condicionado por uma criação conservadora dos anos 90’s. Apesar de tentar acompanhar os tempos modernos e saber que essa imagem já está bem diferente, e que eu não tenho que comparar a minha história com a da minha mãe, eu me vi, inconscientemente questionando a minha vida.

A minha angústia está um pouco longe de se resumir a casamento, filhos e carreira, apesar de com certeza serem questões que eu gostaria de ter mais bem resolvidas, mas o que eu sinto mesmo, é uma necessidade de ser a dona do meu próprio caminho. Eu já não sinto como se tivesse todo o tempo do mundo para fazer escolhas erradas e recomeçar. É como a Jenna do filme, parece que “de repente” como em um passe de mágica, eu tivesse acordado com 30 anos sem saber bem o que eu fiz com a minha vida todo esse tempo. Mas agora, assim como ela, eu sinto necessidade de retomar esse controle. É como se as minhas escolhas atuais tivessem um impacto muito maior do que antes. Junto a isso, tem a construção da mulher que eu quero ser. Muito já se perdeu da garota de 20 anos, mas eu sinto como se eu ainda estivesse em um meio termo, em uma incomoda linha de transição entre a mulher mais meninona, de short, festas e contatinhos, e a mulher de saia midi, eventos culturais e um mozão. É como se eu estivesse órfã de mim mesma, sem identidade.  Não que eu precise necessariamente trocar uma por outra, mas eu sinto que a “fantasia” de menina mulher é uma roupa que já não me serve mais, eu já não me reconheço por inteira nessa mulher, e eu só não me “livrei dela completamente, porque é um lugar confortável que eu já conheço bem. Por outro lado, a mulher que está por vir é algo completamente novo, e o desconhecido sempre assusta. Eu não estou definindo que eu tenho que mudar, essas mudanças estão pipocando no meu peito, tirando meu apetite, me deixando com insônia e mal comigo mesma toda vez que eu cedo aos caprichos da menina. Longe de mim me desfazer de qualquer uma das mulheres que eu fui durante essas 30 primaveras, mas assim como em outros momentos chegou a hora da mudança, de saber o que deixar para trás e o que levar comigo. Ignorar esses sentimentos, seria perder a grande chance de me reconhecer, de me redescobrir, de me reinventar.  Eu estou ansiosa para conhecer essa nova mulher e passar os próximos anos ao lado dela. Não vejo a hora de nos casarmos.


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