É cor de rosa choque!

Teve uma época na minha vida, nos meados de quando eu saí de casa e fui morar em republicas, e que eu comecei a descobrir minha sexualidade e liberdade, que eu tomei pavor de rosa e de quase tudo que fosse visto como feminino demais, delicado, meigo, “de mulherzinha”. Essa atitude aparentemente “inofensiva” tinha apenas um motivo: Ser mulherzinha era algo negativo, fraco, submisso, e, portanto, tudo que fosse socialmente associado a mulheres era algo de certa forma ruim. Mulheres, livres, fortes e independes não usavam rosa, não assistiam filmes de romance clichezão hollywoodiano e pelo amor dos deuses não ouviam sertanejo. Então por um tempo, no auge da minha inocência, inexperiência e meninez eu acreditei que me afastar do feminino, das princesas, dos romances, do rosa, da delicadeza, me faria mais livre, mais forte. Afinal, os homens nascem livres, os homens nascem fortes.

 Eu confesso que a experiência foi válida porque tentar sair um pouco da bolha na qual fui criada, com coisas que me ensinaram a gostar, apreciar e acreditar, me ajudou a entender o sistema com os olhos externos o que facilita os processos de desconstrução, e a compreensão do porquê eu sinto e ajo de determinada maneira. Sair do seu “espaço natural” é sempre um excelente exercício de autoconhecimento, indico. Mas depois de um tempo, quando o pessoal da república fez amizade com um grupo de gays que se uniam e se reconheciam pelo seu próprio vocabulário, estilo, gostos musicais, bandeira, eu percebi que não existe problema nenhum com os símbolos. Não tem nada de errado com o rosa e com a sua associação a mulheres. Não tem nada de errado com o feminino. O feminino é lindo, é sagrado. Se o azul fosse a cor associada ao feminino esta seria uma cor condenada porque o problema nunca esteve na cor, no babado, no salto, na maquiagem, o problema está na figura da mulher. Coisas não são discriminadas, sofrem preconceito ou opressão, pessoas sim. O problema está na forma como a sociedade ainda nos enxerga. Nós não temos que nos apagar, agir como os homens, pensar como os homens, porque nós não somos homens. Os gays entenderam isso muito antes de nós. Eles nunca quiseram ser como os heteros, eles nunca quiseram se assemelhar aqueles que os discriminavam que os oprimiam. Eles eram diferentes, e assim queriam ser vistos e respeitados. Viva a diversidade! Seja de salto, maquiagem, muito rosa, babado, gloss e diva pop tocando no celular da empresa, nós mulheres devemos ser respeitadas e ter o mesmo tratamento que os homens. Sempre que queremos nos destacar em atividades que são majoritariamente masculinas nó temos que “apagar” o feminino para ser aceita. Quantas vezes você já não ouviu que mulher que faz Engenharia não é feminina? Quantas vezes você não ouviu que mulher que joga futebol é macho/fêmea? Quantas vezes você já não ouviu que mulheres que assumem cargos de liderança e gestão são pouco femininas/ pouco atraentes e casadas como o trabalho? É claro que existem mulheres que realmente não gostam de rosa, de salto, maquiagem, babados, romance, mas é isso que elas são: MULHERES, elas não são menos mulheres por não gostar, assim como as que gostam, as que são MULHERZINHA, não são menos capazes, fortes e livres. Nós precisamos impedir que o mundo nos segregue. Ser mulher não é vergonha. Gostar de coisas associadas a mulher não é vergonhoso.

Eu me lembro até hoje do choque que foi assistir a comédia romântica Legalmente Loira, é claro que o filme apela em vários aspectos, pois faz parte do gênero. Mas a fundo ele estampa exatamente o que vivemos: Ser feminina é associado a futilidades e burrice. O próprio namorado da garota não acreditava na sua capacidade de estudar e falar sobre outros assuntos. As pessoas a olhavam e discriminavam única e exclusivamente pela sua imagem EXTREMAMENTE ROSA e feminina no meio de um campus onde impera a masculinidade. Que afronta! Se quer estar em um ambiente masculino por direito, você precisa se “adequar” ao mesmo. O fato de eu gostar e falar de moda não me impede de cursar direito, engenharia, falar sobre política ou qualquer outro assunto. Porque assuntos relacionados ao gosto masculino não são tratados como inúteis e fúteis? De verdade o que agrega ao mundo as torcidas organizadas? O esporte muda a vida de muitas pessoas, mas querido, a moda muda também. O que diferencia um do outro, é que um é mais associado a mulheres e por isso leva uma carga mais negativa do que o outro, simples assim e ponto. Eu me lembro do quão libertador foi o dia em que eu tive coragem de sobre os olhares reprovadores e risinhos escondidos sacar meu hidratante labial, e num gesto quase heroico passar na boca no meio de uma aula. Esse gesto não desviou minha atenção e nem me fez reprovar mas deixou meus lábios macios, hidratados e protegidos daquele ar condicionado. O pior de tudo é que os olhares de reprovação vêm não apenas dos homens, mas das mulheres também. Elas escondem o seu verdadeiro eu para só o libertarem escondidas no banheiro. Uma pesquisa do Instituto sobre Bullying no Local de Trabalho apresentada no site huffpost revelou que mulheres que cometem bullying no trabalho têm outras mulheres como alvos em mais de 70% dos casos. Manas, acordem!

O mundo precisa muito de rosa, o mundo precisa urgente se tornar bem mulherzinha, em todos os espaços que quisermos ocupar.  Já dizia Rita Lee: “Por isso não provoque, é cor de rosa choque”!

Para quem não conhece o filme citado, ou nunca assistiu ele com um olhar um pouco mais feminista eu recomendo esse texto aqui o texto das valkirias: http://valkirias.com.br/o-que-legalmente-loira-tem-nos-dizer/

 

 


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