Éramos cinco, mas só “um” era mulher

 

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O tempo tinha virado um pouco na sexta, fim de semana em casa, reunião de projeto concluída no sábado, cama antes da meia noite, nada de álcool, tudo perfeito para passar o dia inteiro em casa no domingo. Mas tem dias que o tempo parece combinar com seu humor. A lua já estava quase cheia e o domingo amanheceu num tom de azul bonito com um sol fraco, mas brilhoso. A luz invadia a sala, chegando quase ao meio, onde eu tomava meu café matinal sem açúcar. Não dava para segurar, eu me conheço. Energia acumulada do fim de semana em casa, da atividade física em ordem sem furar a dieta com bebedeiras, e a influência daquela energia lunar que mexe com todo o meu ser e que eu não consigo explicar para os menos supersticiosos. Logo comecei a mandar mensagens motivacionais de bom dia na esperança de atingir algum amigo sem ressaca que se animaria em me acompanhar em alguma andança por aí. Não tardou para que dois deles topassem uma trilha.

Fim de inverno, temperaturas subindo um pouco, não o suficiente para tornar a atividade física insustentável, mas o suficiente para nos deixar com vontade de vestir o short, calçar um tênis e explorar um pouco da própria cidade. Destino definido eu procurei me certificar de que meus amigos tinham certeza que o lugar estava seguro, afinal o Rio de Janeiro não está para brincadeira ultimamente. Mas a verdade é que ultimamente não está bom para todos, mas para as mulheres nunca foi seguro. Não há um lugar seguro para mulheres em um país machista e com elevadas taxas de feminicídio.

Quer saber um segredo? Quando eu era criança eu tinha pavor de ter um relacionamento, mas eu digo muito medo mesmo. Por ser muito criança eu tinha certeza absoluta que o meu destino era me casar e dividir a vida com um “estranho” e isso me apavorava. Meu pai passava a semana inteira fora de casa e só voltava nos finais de semana, por isso eu acabava dormindo com a minha mãe. Mamãe tinha uma televisão no quarto e costumava assistir toda quinta feira um programa chamado linha direta que relatava um crime fazendo uma simulação do ocorrido. Se não me falha a minha boa memória, um pouco desgastada pelos anos, não existia um dia sequer em que o programa não trazia algum caso de violência contra a mulher. E não eram coisas como briga no bar, dívida, assalto, ou qualquer outro crime que acometem homens também. Eram crimes bárbaros de ciúme, vingança, ódio, realizados, por maridos, namorados, ex-maridos, homens da família. Já faz muitos anos, eu era apenas uma criança, mas até hoje eu consigo sentir na lembrança o medo que eu sentia de pensar que eu teria que dividir a vida com um homem.

Quando iniciamos a subida do morro, muita escada, corredores e casinhas apertadas e coloridas. O ar começou a faltar tanto pela a altitude como pelo esforço físico. Foi então que ele sumiu de vez. Nos deparamos com um grupo de homens que fumavam algo que eu não sei o que era e um deles estava com uma arma na mão. Meu amigo disse depois que os outros estavam armados também, mas meus olhos estavam presos naquela arma bem na minha frente. É claro que eu comecei a pensar em traficantes, tiros e balas perdidas como sempre ouço nos jornais e tenho certeza que possivelmente meus quatro amigos pensavam também. Mas eu também pensava nos inúmeros casos de estupros em morros e trilhas. Nas inúmeras vezes que mulheres tiveram seus caminhos interrompidos para alimentar uma cultura machista que algumas pessoas insistem em não ver. Foram tantos casos que passaram na minha cabeça em uma fração de segundos que eu até esqueci dos tiroteios e balas perdidas. O estupro me parecia algo muito mais possível e real. Esse pensamento, esse medo, eu tenho certeza que meus amigos não compartilhavam.

 Meu amigo respondeu algo para o dono da arma na minha frente que abriu espaço para a passagem. Ao subir um degrau acima do grupo eu não pensava apenas no alívio de me afastar dali, mas no arrependimento por estar com um short curto e folgado, que deixavam minhas pernas a mostra, bem a vista dos homens que fumavam sentados nos degraus. Vocês têm noção do que o sistema e a sociedade fazem com as cabeças das meninas/mulheres para que de cara com uma arma uma das preocupações que passou na minha cabeça era o comprimento do meu short? Vocês têm ideia do quanto é doentio e nocivo isso tudo? Vocês conseguem entender como nós mulheres vivemos inseguras com ou sem uma arma na nossa frente? Vocês conseguem perceber que esse problema pouco tem a ver com violência, mas com uma questão cultural que ainda coloca as mulheres como objetos a satisfazer uma necessidade básica masculina? Éramos cinco, mas somente um no grupo sentiu medo de ser violentada sexualmente. Éramos cinco, mas somente um no grupo se arrependeu por usar sua própria roupa, confortável e esportiva para um belo dia de trilha. Éramos cinco, mas só “um” era mulher.


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