30 anos de Dirty Dancing: Ritmo Quente

Quem assoprou as velinhas e se tornou oficialmente balzaquiano essa semana foi o queridíssimo, único, polêmico, lindo, sexy e dançante Dirty Dancing: Ritmo Quente. Querida, se você é da década de 80, com certeza deu longos e profundos suspiros pelo quadril rebolante do Patrick Swayze. E se você não é fã de carteirinha, não assistiu no mínimo umas 10 vezes,  não cantou no chuveiro e nem prometeu que dançaria (I’ve Had) The Time of My Life no seu casamento então sinto muito, mas não podemos ser amigas (rs).

Se você assim como eu ama esse clássico de montão, desde a primeira vez que assistiu e você era só uma garotinha, vem cá amiga, deixa eu te contar mais uma coisa: Você é feminista de carteirinha, um mulherão da porra desde as fraldas e você ainda nem sabia o que era isso. E aqui vou contar um pouco o porquê.

  • O filme é ambientado na década de 60. As mulheres ainda não estavam tão fortes no mercado de trabalho. Sua mãe e sua irmã por exemplo, caracterizam mais a ideia de mulher do lar, da família e do matrimônio. A nossa heroína pelo contrário, tem gosto por leitura e pretende ao final das férias de verão estudar economia dos países subdesenvolvidos.
  • A mocinha do filme tem 17 anos, é virgem e perde a virgindade com um semidesconhecido em uma aventura de verão. O boy é de uma classe mais baixa que a sua (é importante frisar que o filme se passa na década de 60 e isso ainda tinha relevância) e dançarino, o que não era bem o homem dos sonhos da família tradicional americana não é mesmo? E você vibrou com um romance, digamos assim: CASUAL. Tudo bem, que você talvez fosse muito nova para isso, mas talvez aí que esteja a beleza da coisa: Você era tão nova que ainda não estava poluída com padrões e etiquetas sexuais a serem seguidos.
  • A “mocinha” do filme está bem longe de ser uma doce, pura e indefesa dama. Baby é inteligente, politizada e de personalidade forte. Infelizmente, devido a sua criação e a época em que se encontrava “ainda” não pensava com a sua cabeça e muitas vezes permitia que o pai falasse por ela. A “infantilização” da mulher fica clara pelo seu apelido “baby”. No inicio do filme ela diz: “Foi no mesmo verão que deixaram de me chamar de Baby.”
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Baby sendo “baby” em uma das cenas do filme.
  • Mesmo sendo um filme da década de 80 a sororidade está presente nele de uma forma linda e forte. Baby é uma mulher com grande senso de justiça e responsabilidade apesar da idade e da limitação do seu mundo. Um dia, passeando com o gerente do hotel ela vê a professora de dança chorando no canto da cozinha e logo dá um jeito de afastar o gerente dali e depois avisa os amigos dela que ela estava chorando. A partir daí se desenrola uma trama no segundo plano ao descobrirmos que a dançarina estava grávida de um dos garçons e que este não queria assumir a paternidade e nem ajudar nos custos do aborto, além de ter agredido a moça. Nas palavras do cretino: “Eu não passei um verão inteiro puxando sacos para dar meu salário para uma garota que provavelmente dormiu com todos os caras daqui. Algumas pessoas contam, e outras não.”
    Reação da nossa heroína:

    voce me enjoa
    “Você me enoja. Fique longe de mim, fique longe da minha irmã ou faço você ser demitido
  • O filme joga na nossa cara a liberdade sexual da mulher, a questão do aborto, sororidade, abandono paterno ou “aborto masculino”, bem no meio de um romance dançante com cara de filme bobinho. E a gente aplaudiu, vibrou e se apaixonou por cada atitude corajosa de Baby, por ela em nenhum momento ter julgado Penny (a dançarina) mas sim tentado ajudar. Vamos, manas! Conseguiu o dinheiro para o aborto, enfrentou o cretino do ex namorado da Penny, substituiu a dançarina em uma apresentação para que ela não perde-se o dinheiro, abraçou, reconfortou, disse que ficaria tudo bem, e quando o aborto clandestino foi mal sucedido, ela enfrentou o medo do julgamento do seu pai para salvar a vida de outra mulher. Não é muita sororidade e lindeza em um filme só? ❤
    Detalhe: Sim, na época o aborto era ilegal nos EUA. Penny foi expulsa de casa aos 16 anos pela mãe, ganhava pouco e ainda trabalhava com o corpo já que era dançarina. Impossível levar à frente uma gravidez indesejada e ainda sem ajuda do pai da criança. E o mais importante: ELA NÃO QUERIA LEVAR. Assim como o pai escolheu não levar, ela também tinha esse direito e que o ESTADO lhe negava. E nós aqui no Brasil ainda estamos presos lá no tempo de Dirty Dancing, vai vendo 
  • O filme está bem longe de ser só um romance, mesmo no núcleo principal entre Baby e Johnny. Na verdade o filme trata muito mais de sexualidade. Está claro nos olhos de Baby que ela está em erupção.  E ela não fica parada esperando a atitude do seu objeto de desejo não monamour. Ela vai para cima! A sexualidade também é tratada por meio da dança, o corpo como forma de expressão, de liberdade e empoderamento. Ao condenar a dança eles queriam reprimir a sexualidade. Nas palavras do dono do hotel: “Aqui é um espaço de família. Ora, nos poupe da sua hipocrisia.”

    giphy
    Olha a carinha dela de bela, recatada e do lar que está querendo só um romance, sei!
  • Por fim o filme aborda muito mais a liberdade e sexualidade feminina. Não é o corpo de baby que é constantemente desejado e cobiçado. Não! O objeto de desejo ali é o bonitão professor de dança, não é atoa que milhões de mulheres ao redor do mundo ficaram molhadas apaixonadas e sem dormir por muitos anos! Além disso, o papel também é invertido nesse sentido de objetificação pois o Johnny é constantemente assediado por mulheres mais velhas e ricas que são deixadas sozinhas por seus maridos, e ele não gosta nem um pouco disso. Vai vendo!

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