Não é sua obrigação “consertar” homem.

As vezes nós perdemos a oportunidade de dizer as coisas com medo de sermos mal interpretados ou para evitar conflitos. Eu fiz isso a vida toda, na verdade ainda faço, mas esse foi o lugar que eu escolhi para me esconder um pouco menos. Outro dia estava conversando com uma professora que eu admiro muito, gosto mesmo, de graça. Ela é daquelas mulheres magnéticas, com uma energia que encanta. Ela estava me falando da sua família, das suas irmãs e dos seus sobrinhos. Eu gosto muito de ouvir as histórias das pessoas. Gosto mesmo. Aquelas histórias que não tem filtros do Instagram, aquelas histórias reais de tio, prima, papagaio e cunhada. Aquelas que a gente conta na cozinha tomando um café quente e comendo um pedaço de bolo fresco, ou na calçada de casa sobre a luz das estrelas depois de um dia cansativo de trabalho. Pelo menos era assim que acontecia na minha infância no interior de Minas Gerais.

Ela me contou que na sua família são muitas mulheres, que o único menino é o seu sobrinho que está morando no seu apartamento lá no sul. Ela então começou a dizer como ele era desorganizado, festeiro, bagunceiro e beberrão. Nada demais, quem nunca? Ou, quem não? Rs. Mas então ela começou a culpar as mulheres da família pela atitude do sobrinho. “Talvez ele tivesse sido mimado demais por tantas mulheres e por isso aprontava com a sua namorada”. Sim, nós ainda erramos muito na educação dos nossos meninos. Esse é um dos grandes problemas de ainda existir tanto machismo na nossa sociedade, mas proteger e dar amor sem impor limites pode criar homens e mulheres mimados, mas não cria machistas. O machismo vem da propagação de ideias patriarcais, o que aparentemente não era o caso da sua família formada majoritariamente por mulheres e que, segundo ela própria, não aprovavam as atitudes do seu sobrinho com a namorada. O problema ali era que o sobrinho dela era homem. Ele nasceu homem. Não importa se nasceu em uma família de matriarcas, se cresceu em uma casa rodeado de mulheres. Nós sabemos que a maior parte da formação social acontece em sociedade. Não é no seio materno ou no âmbito familiar. Existe influência? Claro que sim. Mas a influência social é muito maior. Porque em casa se não existir nenhum conflito você naturalmente já é amado e aceito. Você não precisa vestir papeis sociais, porque todos ali te amam e te respeitam pelo o que você é. É por isso que as crianças que não recebem isso em casa sofrem traumas irreparáveis. Porém, quando saímos para outros círculos sociais como escolas, aulas coletivas, no parque do bairro, começamos a ter contato com pessoas que não nos amam e aceitam naturalmente pelo que somos. Nós começamos a ter que provar o nosso valor. A provar que merecemos ser amadas. Algo que recebemos naturalmente, e que na verdade deveríamos receber sempre e ser nosso por direito, nos passa a ser negado.  Dessa forma, ao nascer homem ele vai receber todos os estímulos de uma sociedade machista e patriarcal para que desenvolva o machismo, para assim ser aceito “nos grupinhos” e não ser excluído. Inconscientemente ele se torna machista, mesmo que ame todas as suas tias, mães, irmãs e primas. É algo muito enraizado e difícil de ser separado.

Por fim, ela disse que eles terminaram e que realmente ali nunca daria certo pois a menina era muito boazinha, não tinha pulso firme e por isso não conseguia colocar rédeas e limites nele, e por isso, ele fazia o que queria com ela. Agora, ele estava como uma menina mais firme, de personalidade forte, que tomava o controle, então parece que ele ia tomar jeito e se casar. Eu ouvi isso calada, sei que ela disse com a melhor das intenções, talvez feliz pela ex-namorada que agora estava livre de uma relação desgastante e infeliz, e talvez elogiando a postura da atual que conseguiu “consertar” o garoto. Mas infelizmente, é exatamente isso que ouvimos sempre por aí. Que mulher de verdade “conserta” o homem. Mas a verdade é que nós não temos que consertar ninguém além de nós mesmas. Em uma relação ambas as pessoas devem ser completas e inteiras. A única coisa que deve existir ali é troca e reciprocidade. Não é obrigação da mulher cuidar do homem, assumindo o antigo papel da mãe. Não é culpa da “natureza pacífica e calma” da mulher quando um homem grita com ela, agride verbal ou fisicamente, humilha, menospreza ou “apronta”. Você não tem que ter uma personalidade forte ou ter “pulso firme” para receber algo que é seu por direito: “O RESPEITO DO SEU PARCEIRO”. Por favor querida, não vamos mais confundir as coisas.


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